Bárbara Forte
Do BOL, em São Paulo
13/06/201607h59
Imagine festejar o aniversário
com uma roda de samba tocando ao vivo, no meio da sua casa? O Samba Toca da
Onça, quinta roda visitada pelo BOL no ano em que é comemorado o Centenário do
Samba, resolveu adaptar a reunião do grupo para, além de tocar na Praça
Ribeirão do Carmo, no Jardim Vera Cruz, homenagear os moradores de São Mateus,
na zona leste de São Paulo. O grupo 'invade' a festa do aniversariante – sempre
um membro da comunidade que é assíduo nos encontros da roda – com sucessos
imortalizados na voz de sambistas consagrados e muita animação.
O cobrador de ônibus Celso
Teixeira Cintra, que estava comemorando seus 47 anos – os mesmos como morador
de São Mateus – recebe os convidados com o portão de casa aberto, sem
restrições. Amigos, familiares e novos visitantes podem chegar e participar,
gratuitamente, da comunhão. "Esta já é a terceira vez que eles comemoram
comigo. Aqui não tem essa, é só entrar e se divertir", afirma Celso, que
já oferece uma cerveja e um refrigerante logo na entrada.
O Samba Toca da Onça acontece de
15 em 15 dias, aos sábados, às 18h. No aniversário de Celso, um incentivador do
samba de raiz tocado pelos 12 membros do grupo, o horário mudou um pouquinho.
Mas festa nunca começa na hora marcada, não é mesmo?! "Teve gente que chegou
mais cedo, outros passam aqui bem mais tarde. Nossa festa não tem hora para
acabar", diz o cobrador de ônibus.
O vigilante Naldo Candiá,
de 40 anos, é um dos fundadores e idealizadores do projeto, que teve início em
2010. Segundo ele, "o 'Toca da Onça' foi uma homenagem a um bar onde ele e
os irmãos tocavam, ainda jovens, nos anos 1980, e que tinha esse nome."
"A proprietária do
bar, Dona Irene, tinha a fama de ser brava, não aceitava fiado e só dava a
cerveja depois que o cliente pagava. Com isso, o marido dela resolveu
apelidá-la de Dona Onça, e o nome pegou. Como o ambiente do bar era pequeno,
ficou 'Toca da Onça'", explica Naldo.
Hospitalidade e alegria
Aparecido Teixeira Cintra,
Seu Paraná, como é conhecido, de 72
anos, é o anfitrião da festa, além de pai do aniversariante. Aposentado, ele se
apresenta para os convidados e logo começa uma longa prosa.
Evelson de Freitas/BOL
Seu Paraná, aos 72 anos, se
diverte na festa do filho, ao lado da esposa
"Um dia eu cheguei
para minha 'velha', disse que estava cansado do aluguel, peguei minhas poucas
coisas e acabei aqui, no Jardim Vera Cruz. Com a gente veio mais um monte de
parente. Erguemos nossa casa há quase 50 anos, era só um brejo e muito mato em
volta", conta o morador.
De acordo com ele, no
início não foi fácil, mas conseguiu criar os quatro filhos, os netos – que seu
Paraná já até perdeu a conta – e os seis bisnetos. A roda, que hoje toma conta
da música na casa antiga do aposentado, começou na porta dele. "Na época
eu nem gostava de samba. Os meninos do Toca da Onça e meus filhos que me
fizeram mudar de opinião", revela à reportagem do BOL.
Do portão da casa do Seu
Paraná, o Samba Toca da Onça seguiu para um bar que ficava em frente a um
campinho de futebol, também na região. "A gente experimentou alguns
lugares até chegar à Praça Ribeirão do Carmo, onde tocamos atualmente",
explica o zelador Marcelo Viana, de 38 anos, outro fundador da roda.
Para todos os gostos
Crianças, adolescentes,
jovens, adultos e idosos. O público do Samba Toca da Onça é bem variado e
familiar. "Nossa roda tem muita criança. Os filhos dos músicos, as
famílias adoram comparecer e participar. Essa união é, inclusive, um dos nossos
objetivos", afirma Marcelo.
Outro objetivo do grupo
mencionado pelo zelador e músico é a inserção da cultura popular na periferia,
de forma gratuita. "Focamos em melhorias para a nossa comunidade, pagamos
tudo no nosso bolso e recebemos a ajuda de líderes comunitários daqui. A
população também pode ajudar com um quilo de alimento não perecível, mas não é
obrigatório", diz.
Evelson de Freitas/BOL
Onça é o símbolo da quinta
roda visitada pelo BOL, no bairro de São Mateus
Os sambistas logo organizam
a roda e testam o som dos instrumentos e microfones antes de começar a
cantoria. Tem onça por todo o lugar: na toalha da mesa, no pôster pendurado na
parede, na camisa dos músicos e, inclusive, uma estátua do animal no centro de
tudo.
Segundo Naldo Candiá, o
púbico pede e eles tocam. Dessa forma, os integrantes conseguem fazer uma
mistura com os sambas que marcaram os anos 1970, 1980 e 1990. "Clara
Nunes, Martinho da Vila, até Arte Popular entra no nosso repertório",
brinca.
Para o músico, mais do que
ajudar a comunidade em que vivem, os encontros quinzenais são um momento em que
os integrantes e participantes entram em verdadeira comunhão, divertem-se e
deixam os problemas de lado. Para os membros menos experientes, ainda é um
espaço de aprendizado e disciplina. "Eu venho aqui, cada dia, com uma
missão. A de ensinar. Ensinar é o meu caminho", declara.
Samba Toca da Onça
Endereço: Praça Ribeirão do
Carmo, no Jardim Vera Cruz, em São Paulo (mas pode migrar para a casa de algum
aniversariante do grupo)
Dia e horário: Aos sábados,
de 15 em 15 dias, às 18h
Telefone: (11) 95443-6745
Entrada: gratuita